Site do escritor Roberto Leon Ponczek

Olhei para um fino espelho de prata e só vi minha imagem, olhei por uma tosca janela e vi o mundo.

Textos


O TRISTE FIM DE UM JASMINEIRO

 

Contando apenas com as modestas economias de professor universitário, José conseguiu comprar um pequeno apartamento de quarto e sala num edifício cuja reputação estava longe de corresponder ao elegante nome italiano: Edifício Palazzo Firenze.

Cada andar abrigava doze apartamentos minúsculos, comprimidos porta contra porta ao longo de corredores estreitos que lembravam enfermarias de um velho hospital. A vizinhança pouco contribuía para amenizar aquela impressão. Diariamente ecoavam discussões conjugais, desavenças entre vizinhos e festas ruidosas embaladas por músicas de gosto duvidoso. Prostitutas, de minissaias e maquiagem carregada, subiam e desciam os elevadores madrugada adentro. Pelos corredores, o cheiro enjoativo de perfumes baratos misturava-se ao odor de frituras gordurosas que escapava das pequenas cozinhas através dos basculantes entreabertos.

O térreo era ocupado por um amplo estacionamento. A vaga de José ficava nos fundos, ao lado de um canteiro onde florescia um magnífico arbusto de jasmim-estrela. Seu perfume intenso parecia purificar o edifício, como se tentasse, inútilmente, vencer todos os outros odores. Era o único sopro de delicadeza naquele ambiente degradado.

Todas as manhãs, antes de sair com seu velho Fiat Uno rumo à universidade, José via um homem idoso, de corpo quase esquelético, dedicado ao jasmineiro. Podava cuidadosamente os galhos secos, revolvia a terra com uma pequena enxada de cabo curto e, em seguida, regava a planta com baldes de água retirados da torneira da garagem. Aquele ancião, magro e silencioso, destoava completamente dos demais moradores, quase todos jovens, inquietos e barulhentos.

Certa manhã, desceu mais cedo para conhecê-lo. O jasmineiro estava completamente florido, coberto por uma constelação de pequenas flores semelhantes a estrelas brancas. O velho trajando longa túnica branca, retirava delicadamente algumas flores e as depositava num recipiente com água, como quem executava um antigo ritual.

 

— Como o senhor se chama? — perguntei.

 

— Yogananda.

 

— O senhor segue alguma religião oriental?

 

Ele sorriu discretamente.

 

— Sim. Sou yogui. Pratico o hinduísmo e a meditação transcendental.

 

— E existe um Deus?

 

— Nós veneramos a Quadrimúrti: Brahma, Krishna, Vishnu e Shiva.

 

Depois de uma breve pausa, devolveu-lhe a pergunta:

 

— E você? Tem alguma religião?

 

— Sou judeu. Cremos num único Deus.

 

Ele permaneceu em silêncio. Apenas inclinou levemente a cabeça e voltou ao seu trabalho. José despediu-se e seguiu para a universidade.

Ao voltar para casa, o céu já se avermelhava. O sol mergulhava sem pressa, a oeste, nas águas da Baía de Todos os Santos, espalhando sobre elas um rastro de reflexos purpúreos que tremeluziam ao ritmo das ondas.

José estacionou o carro. O perfume do jasmineiro era tão intenso que ele se deixou vencer pela tentação de colher algumas flores para perfumar o apartamento. Apanhou meia dúzia delas apenas, certo de que sua ausência passaria despercebida na constelação das estrelas brancas.

De súbito, como se tivesse brotado do chão, surgiu o autoproclamado guru hindu. Esgueirando-se entre os carros, avançou em sua direção com o rosto transtornado e, aos berros, vociferou:

— Vocês, judeus, são todos ladrões! Em vez de pagar pelo que pegam dos outros, preferem roubar!

José ficou imóvel. A violência da agressão o paralisou. Sem encontrar palavras, apenas estendeu a mão, oferecendo-lhe as poucas flores que acabara de colher. O homem, porém, não diminuiu o tom.

— Fique com elas! Mas, da próxima vez, pague pelo que levar!

José entrou no elevador trêmulo, ainda atordoado. Não era por medo, nem covardia, mas incredulidade. Custava-lhe aceitar que acabara de ser insultado justamente por um homem que pregava paz, desapego, meditação e harmonia. Sob as vestes alvas e o discurso espiritual escondia-se um antissemitismo bruto, destilado sem o menor constrangimento.

Até então, José ouvira apenas piadas de mau gosto sobre judeus. Nunca havia sido alvo de uma ofensa tão direta e violenta.

Ao chegar em casa, telefonou para a amiga Edi, praticante de ioga e admiradora das religiões orientais. Contou-lhe, ainda abalado, tudo o que acontecera. Ela confirmou que conhecia o homem, chamado Yogananda, e que inclusive havia frequentado alguns de seus cursos de meditação transcendental.

Para Edi, ele era um mestre espiritual. Para José, passara a ser apenas um antissemita escondido atrás de túnicas brancas e mantras.

Meses depois, concluído finalmente o inventário dos pais, José recebeu sua parte da herança e pôde comprar um apartamento maior. Mudou-se do Edifício Palazzo Firenze e alugou o antigo quarto e sala a um senhor idoso.

Durante muito tempo não voltou ao prédio. Cerca de um ano depois, precisou entregar um novo contrato ao inquilino. Estacionou na antiga vaga e estranhou a ausência do jasmineiro. No lugar do arbusto havia apenas terra endurecida, alguns carrapichos e ervas daninhas resistindo ao abandono.

Chamou o porteiro.

— O que aconteceu com o jasmineiro?

O homem pareceu surpreso.

— O senhor não soube?

— Soube de quê?

— Pouco depois que o senhor se mudou, o velho que cuidava dele sofreu um infarto. Ainda tentaram levá-lo ao Hospital Português, mas morreu antes de chegar.

José permaneceu em silêncio por um instante.

— E o jasmineiro? - perguntou José muito mais preocupado com o destino do belo arbusto do que com o de seu cuidador.

O porteiro suspirou.

— Foi secando devagarinho. Parecia que tinha perdido a vontade de viver. No fim, tive de arrancá-lo com raiz e tudo.

José olhou longamente para o canteiro vazio. Não sabia que as plantas eram capazes de absorver a alma de quem as cultiva. Mas era fácil imaginar que aquele jasmineiro, alimentado durante anos pelas mãos de um homem consumido pelo ódio, acabara morrendo junto com ele.

Restava apenas a lembrança do perfume — incapaz, afinal, de ocultar o veneno que se escondia sob as túnicas brancas e os mantras enganadores.

 

 

Roberto Leon Ponczek
Enviado por Roberto Leon Ponczek em 27/07/2026
Alterado em 27/07/2026
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