

![]() O POVO JUDEU NO DIVÃ DO PSICANALISTA
O povo judeu deitou-se como quem deposita milênios sobre o divã. A analista, fiel ao silêncio do ofício, pediu-lhe que descrevesse afetos, lembranças e raízes — que descesse aos porões da infância, aos traumas fundadores, ao pó das origens. O paciente silenciou. Pensou em como as épocas se escoam: lentamente, arrastando o peso insuportável da memória. Quando enfim rompeu o silêncio, sua voz parecia vir de tempos geológicos. Disse sentir o terror e a esperança, a ira e o amor, a fé lacerada e o desespero — e, no avesso de tudo isso, delírios de grandeza e ruína: o peso de ser o povo eleito, perpetuamente vigiado, julgado e, às vezes, punido.
A Dualidade entre a Europa e o Retorno — Na Europa — começou o paciente —, vivíamos sob a sombra perene dos pogroms e do Holocausto, encolhidos com um olho fechado e outro aberto, como quem dorme numa cela lotada de assassinos. O medo era nossa pele mais íntima. Gritavam-nos: “Judeus, voltem para a Palestina, aqui não é o vosso lugar”. Em 1948, parte de nós retornou a Israel, recém criado. Fomos recebidos à bala. As antigas casas já não nos pertenciam; outras vidas, de peles mais morenas, ocupavam o vazio de nossas ausências. E passaram a gritar: “Judeus, voltem para a Europa, aqui não é o vosso lugar”. Desde então, algo me petrificou. Vivo com o dedo cravado no gatilho, à espreita do inimigo. Fui a vítima indefesa na Europa. Aqui, tornei-me implacável, por vezes cruel. Confundo os rostos da terra com os loiros arianos da Europa, e aponto o fuzil para qualquer sombra que ouse mover-se. E acrescentou, em um sopro: Os conflitos do presente não passam de ecos — variações de uma dor primogênita que nunca terminou de acontecer.
As Raízes e os Primeiros Traumas Recuou ainda mais na penumbra da mente. Falou de um jardim primordial, onde Adão e Eva escolheram o fruto amargo e, com ele, a condenação ao exílio. Falou de Caim, que inaugurou os dias com as mãos manchadas de sangue, selando a humanidade sob o signo da transgressão. Depois veio Abraão, conduzindo Isaac ao cume do Monte Moriá, curvado à vontade de um Deus que estica a corda da obediência até o limite do insuportável. No segundo suspenso entre a lâmina e a carne, a mão do anjo deteve o cutelo — mas o terror já havia se gravado para sempre nas almas do pai e do filho. A analista registrava tudo em frenesi no papel. — Desde então — prosseguiu o paciente —, habitamos sob o olhar de um Deus panóptico, que tudo vê, pesa e exige com rigor onipotente. Julga-nos a cada ano se iremos continuar vivendo ou não. Diante dele, jamais sabemos se somos os escolhidos... ou se seremos apenas submetidos à próxima prova.
Ciclos de Exílio e Retorno Veio a fome. E, com ela, o Egito — fértil como promessa, implacável como o destino. Ali, o pão foi garantido ao alto preço da liberdade algemada. Até que Moisés, resgatado das águas do Nilo, guiou o rebanho rumo ao deserto, onde o tempo deixou de ser relógio para converter-se em travessia pura. O mar se abriu em muralhas de escuma, os inimigos tombaram na voragem, e a terra prometida enfim se abriu à vista. Os doze filhos de Jacó dividiram- na em doze tribos. Um rei as uniu como nação. Mas a história jamais silencia. Jerusalém foi sitiada não com o ímpeto da pressa, mas com a paciência metódica da ruína. A fome fez o trabalho que a espada negligenciara. Nabucodonosor recolheu os espólios humanos e físicos e arrastou-os para os cativeiros da Babilônia, deixando para trás apenas o silêncio de corpos esquálidos sobre a poeira. Houve, contudo, o retorno — sempre o retorno. Ciro, o Grande, permitiu que reerguessem os muros, o altar, a esperança. Esdras e Neemias devolveram as pedras aos seus lugares. Mas Roma marchou. Tito esmagou o que mal havia cicatrizado, mudou os nomes das províncias — na vã tentativa de apagar a certidão de nascimento de um povo — e espalhou os cacos ao vento do mundo.
A Diáspora e a Perseguição Religiosa E assim principiou a diáspora, a grande dispersão. Ao sul, os sefarditas floresceram entre as cores do norte da África e os átrios da Andaluzia — até que as fogueiras da Inquisição transformaram a fé em heresia e a diferença em sentença de morte. A leste, os asquenazitas aprenderam a respirar sob a ameaça constante do gume invisível. Acusados de culpas fantasmagóricas, tornaram-se o alvo visível de ódios viscerais. Massacrados nos pogroms, carregaram nos ombros fardos de uma culpa que jamais lhes coube. — Chamavam-nos de assassinos de Deus — murmurou o paciente —, sem notar que esse mesmo Deus, no fundo, era apenas Joshua, um dos nossos rapazes dissidentes que pregava que o amor deve prevalecer sobre a lei.
O Esgotamento da Analista A analista já não escrevia. O relógio sobre a escrivaninha parecia estancar os ponteiros, como se o próprio tempo se recusasse a carregar o peso daquele relato. Na solidão de sua casa, tentou decifrar o que ouvira. Concluiu que não lidava apenas com neuroses individuais, mas com uma arqueologia do trauma — camadas geológicas de dor acumuladas século após século. Ainda assim, regressou para a sessão seguinte. E o século XX abriu suas feridas. — Um paranoico ascendeu ao poder — disse o paciente —, brandindo a promessa de uma pureza de raça, e encontrou em nós a sobra exata a ser incinerada. A escória a ser eliminada. Os campos de extermínio ergueram suas torres de vigilância e suas cercas de arame eletrificadas. Corpos viraram cinzas. Nomes perderam a identidade e ganharam números gravados a ferro e tinta na pele. — Seis milhões — soprou. — Seis milhões reduzidos à fumaça, subindo mansa e verticalmente pelas chaminés, deixando no ar o ranço denso de carne queimada.
O Veredito de Sigmund À beira do colapso emocional, a analista buscou o conselho de seu mestre. O supervisor ouviu o caso em silêncio e impôs o último recurso: consultar o patriarca da psicanálise. A resposta tardou semanas, quase resignada. O tratamento deveria ser suspenso imediatamente. A razão? O Doutor Sigmund também era paciente. Pertencia à mesma estirpe, guardava as mesmas cicatrizes, sangrava pelas mesmas fendas. Não havia a distância clínica exigida entre quem investiga a alma e quem carrega a história no próprio sangue.
Epílogo Sem a ilusão de uma cura, restou a indestrutível resiliência. O paciente ergueu-se do divã e seguiu seu caminho — não apesar das feridas, mas fundido a elas. Décadas mais tarde, um de seus herdeiros espirituais, o cineasta Woody Allen, tentaria uma fuga desesperada: congelar-se no tempo do futuro, na esperança de que a ciência curasse a angústia herdada do passado. Despertou séculos depois, em um mundo novo de robôs, algoritmos e máquinas inteligentes, onde a humanidade vestia outras formas. Mas lá estavam eles. Sentados em círculos, recontando as mesmas histórias ancestrais: a escravidão nos tijolos do Egito, o êxodo no deserto, as invasões de impérios hostis, a Inquisição, o estigma dos guetos, o horror das cinzas. Como se o tempo físico pudesse avançar infinitamente — mas a memória, prisioneira de si mesma, recusasse qualquer remédio. Como se a dor, paciente e obstinada, tivesse aprendido a arte de sobreviver a todas as eras.
Roberto Leon Ponczek
Enviado por Roberto Leon Ponczek em 17/04/2026
Alterado em 15/08/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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