

![]() O QUARTO DAS SOMBRASO QUARTO DAS SOMBRAS
Escolhemos passar alguns dias de férias em Vassouras, pequena cidade encravada no centro-sul fluminense, a cerca de 130km da capital.
À primeira vista, ela parecia repousar fora do tempo. Em torno da praça principal, jardins geometricamente cuidados emolduravam casarões e palacetes coloniais que ainda ostentavam, com discreta altivez, os resquícios da riqueza produzida pelo café. No alto da colina, uma igreja branca dominava a paisagem como uma sentinela silenciosa, conferindo ao conjunto uma solenidade quase litúrgica. Eram os vestígios de um mundo desaparecido, preservados pelo Patrimônio Histórico como quem tenta impedir que a memória se dissolva.
Dizem que a cidade herdou o nome de uma modesta planta nativa, a vassourinha, da qual se faziam as rústicas vassouras de piaçava que, até hoje, varrem quintais pelo Brasil afora. A poucas quadras dali, porém, pulsava outra cidade: ruas comerciais movimentadas, mesas de bares ocupadas por conversas sem pressa e restaurantes de cozinha generosa, onde a galinha caipira com angu reinava soberana. Vassouras nos pareceu, desde o primeiro instante, um lugar acolhedor, desses onde a vida ainda conserva um ritmo humano mais lento de viver.
Nossa pousada ficava no lado oposto da praça. Era um sobrado elegante, disposto em torno de um jardim interno que lembrava o claustro aberto de um antigo convento. Hibiscos vermelhos e margaridas iluminavam os canteiros, justificando poeticamente o nome da casa. Tudo ali inspirava tranquilidade. O quarto que nos reservaram, no térreo, era amplo e confortável. De um lado, abria-se para o jardim; do outro, a janela dava para o muro alto e áspero coberto de limo, da propriedade vizinha.
Depois de um primeiro passeio pela cidade, regressamos à pousada. Serviram-nos um café abundante, com bolos caseiros, queijos frescos e geleias artesanais. Exaustos da viagem, recolhemo-nos ao quarto, satisfeitos com a escolha. Tudo parecia perfeito. Até que a noite caiu.
Quando apagamos a luz e a televisão mergulhou no silêncio, o quarto começou, lentamente, a perder a aparência acolhedora que tivera durante o dia.
Sem qualquer aviso, as duas janelas voltadas para os fundos inundaram-se de uma luminosidade alaranjada, pulsante, intensa. O clarão açoitava o paredão da casa vizinha e, sobre aquela superfície áspera, desenhavam-se duas sombras humanas.
Elas não caminhavam. Deslizavam. Ora subiam lentamente, ora desciam num movimento errático; depois cruzavam uma diante da outra, como se obedecessem a uma coreografia incompreensível, executada por seres privados de corpo.
A luz era intensa demais para permitir o sono. E aquelas figuras, projetadas sobre o muro como espectros aprisionados entre dois mundos, pareciam dirigir-se a nós numa linguagem sem palavras, mas perfeitamente inteligível: “vão embora”. Seriam os antepassados dos barões cafeicultores, nos advertindo para deixar o lugar que outrora pertencia às suas famílias? Senti o suor escorrendo- me do rosto. Levantei-me cambaleando até o banheiro e abri a torneira para lavá-lo.
Foi então que um líquido espesso, viscoso e verde como limo, irrompeu com violência da torneira: era uma água com forte odor, que parecia ser drenada da parede em frente.
Recuo instintivamente, batendo as costas na porta do banheiro. O coração disparou, e por um instante absurdo pensei que estivesse tendo um desses pesadelos que não se desfazem ao acordar, permanecem vívidos por um lapso de tempo.
Voltei a abrir a torneira, desta vez com mais cautela. O mesmo jorro musgoso tornou a escorrer pela pia como se a tubulação tivesse sido instalada na casa ao lado.
Do quarto, ouvi minha companheira me chamar, a voz tensa, quebrada:
— Você viu isso?
Não precisei responder. Ao sair do banheiro, percebi que a luz alaranjada das janelas havia se intensificado. As sombras no muro já não eram apenas duas. Agora eram várias. E se aproximavam umas das outras como se se reconhecessem. O quarto, antes apenas estranho, tornara-se hostil.
E então compreendi, com uma clareza que não admitia dúvida, que não estávamos sendo apenas observados. Estávamos sendo hostilizados. Minha companheira estava sentada na cama, encolhida contra a cabeceira, os olhos fixos na janela.
— Isso não é normal… — ela sussurrou, quase sem voz.
Eu não respondi. Não havia resposta possível que não soasse ridícula diante do que víamos.
Lá fora, as sombras haviam retomado o movimento. Mas agora não era mais um deslocamento aleatório. Elas se organizavam. Formavam linhas, depois círculos, depois algo que lembrava uma espécie de escrita, como se o muro tivesse se transformado numa pedra preenchida por hieróglifos.
A luz alaranjada pulsava em intervalos regulares, como um farol.
Foi então que percebemos o detalhe que até aquele momento nos escapara: as sombras não vinham apenas da iluminação externa. Havia algo mais. Algo dentro do próprio muro.
Uma das figuras se destacou das demais. Aproximou-se lentamente da superfície, como se estivesse tentando atravessá-la. E, por um instante impossível, pareceu conseguir.
O contorno escureceu, deformou-se, e uma forma mais densa surgiu do outro lado, pressionando a parede como um corpo tentando invadir fronteiras de um mundo que não lhe pertencia.
Minha companheira soltou um grito abafado.
— Não olha! — eu disse, sem saber se falava com ela ou comigo mesmo.
Mas era tarde. Então, sem qualquer transição, todas as sombras no muro se voltaram de uma vez para nós.
Não havia mais dúvida. Elas nos encaravam. E, pela primeira vez, não eram apenas projeções. Elas responderam ao nosso olhar.
E, do outro lado do vidro, algo começou a se formar, não tinha forma fixa. Às vezes parecia humana. Às vezes parecia um conjunto de manchas que se retorciam, dobrando-se sobre si mesmo. E, ainda assim, havia algo inegavelmente consciente naquele movimento. Minha companheira agarrou meu braço com força.
— O que eles querem? — ela perguntou, tremendo.
Eu não sabia. Mas, naquele instante, entendi algo pior: não era uma invasão. Era uma observação. Nós éramos o fenômeno. E eles, os observadores.
A figura no vidro inclinou-se levemente, como se estudasse nossa reação. E então, pela primeira vez, algo mudou no padrão das sombras lá fora. Elas começaram a recuar. Não em fuga. Em formação. Como se tivessem visto o suficiente. Como se já soubessem o que precisavam saber. Voltaram às duas dimensões originais projetadas sobre o muro, recomeçando sua dança caótica. Aproveitamos a trégua que elas nos haviam dado e corremos desabalados para a recepção e narramos ao atendente o ocorrido, suplicando que viesse verificar o fenômeno. Mas quando o rapaz entrou no quarto, as sombras haviam se dissolvido. Quando abri a torneira, corria apenas água. Devíamos parecer dois alucinados, dois lunáticos em surto, pois nada do que relatamos se repetiu diante dele.
Mal o rapaz saiu, incrédulo, as sombras retornaram, ainda mais rápidas, ainda mais agressivas. Desta vez, saquei o celular e filmei. Era a prova de que não mentíamos, de que não sofríamos de alucinações lisérgicas. Voltamos à recepção, batendo a porta, e exibimos o pequeno vídeo. Não havia como nos desacreditar: o empregado viu, com os próprios olhos, as formas se contorcendo no fundo alaranjado.
Tornamos ao quarto, acompanhados. E, de novo, tudo havia desaparecido — luz e sombras, como se o paredão jamais tivesse servido de anteparo para as sombras dançantes.
O rapaz ensaiou então uma explicação descabida: deveria haver alguma movimentação no interior da casa ao lado,pois estava desabitada há anos. A explicação, além de absurda, redobrou nosso pânico. Exigimos a troca de quarto.
Calçamos às pressas as sandálias e, deixando todos os pertences para trás, fomos conduzidos a um quarto no segundo andar, com janela para a rua. Custou-nos muito tempo até que o coração aquietasse e o sono, por piedade, nos vencesse.
Na manhã seguinte, à luz do dia, tudo parecia normal. Voltamos ao quarto original — era, de fato, bem melhor e mais espaçoso — e tomamos o café mais tranquilos. Na recepção, outra funcionária ofereceu-nos uma explicação mais sensata: no quarto ao lado havia uma varanda com plantas, cuja luz a hóspede costumava deixar acesa à noite. As sombras seriam apenas as folhagens ao vento, ou a própria hóspede a se deslocar. Fomos bater à porta da vizinha para pedir-lhe que não acendesse a luz, mas não a encontramos. Ainda assim, a hipótese era plausível. E nos convenceu.
Na noite seguinte, tudo recomeçou, da mesma forma. Batemos novamente na porta da vizinha. Silêncio. Mas já tínhamos uma causa natural. E, como se sabe, uma vez conhecida a causa, o medo cessa. O medo é filho da ignorância. Nossa tranquilidade, porém, durou pouco.
Algo ainda mais assustador passou a acontecer: ao nos deitarmos e ligarmos a televisão, todos os canais transmitiam a mesma imagem — as sombras se movendo sobre o fundo alaranjado. Agora, além de tê-las a poucos metros no paredão, tínhamos sua transmissão ao vivo, como se câmeras ocultas na hipotética varanda as enviasse em tempo real para todos os canais da televisão.
Desta vez, não perdemos tempo. Atiramos de volta às malas tudo que havíamos retirado e fugimos da pousada a passos pppppp, sob o olhar atônito do funcionário noturno.
Apesar do prejuízo das diárias pagas antecipadamente, alojamo-nos em outro hotelzinho onde, enfim, dormimos sem sobressaltos, e pudemos continuar nossa estadia na aprazível cidade onde outrora se cultivou café e piaçava.
Quanto aos fenômenos, depois que as imagens apareceram nas televisões, não era mais possível determinar suas causas.
Roberto Leon Ponczek
Enviado por Roberto Leon Ponczek em 25/12/2025
Alterado em 30/07/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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