

![]() HERMETO PASCOAL, UMA FORÇA DA NATUREZAHERMETO PASCOAL, UMA FORÇA DA NATUREZA
Por questão de cumprimento de prazos editoriais, este artigo foi redigido antes do falecimento de Hermeto Pascoal, ocorrido em 13 de setembro de 2025, aos 89 anos. Assim, o texto abaixo escrito inicialmente como uma pequena resenha, se tornou uma homenagem póstuma a esse gênio que inspirava e expirava a natureza em forma de música. *************** Hermeto Pascoal (sem h entre o c e o), e com os e abertos, (Hérméto), foi, sem dúvida, o mais controvertido e excêntrico músico brasileiro da atualidade. Seu estilo é indefinível: um músico “apenas intuitivo” , sem formação acadêmica para a ortodoxia dos conservatórios; complicado e hermético para o grande público que se acostumou a ouvir a música fácil de consumo e “americanizado”, para críticos xenófobos como José Ramos Tinhorão. Será Hermeto o criador do forró progressivo ou do jazzado? É inútil classificá-lo ou rotulá-lo, pois é um incomum criador de sonoridades agrestes, extraídas da natureza, desde a infância, em Lagoa da Canoa, quando se sentava na sombra debaixo de uma árvore e dialogava com os passarinhos com uma flauta de bambú que ele mesmo construiu. Portanto, não foi um músico ungido nas academias, mas forjado na natureza. Sobre Hermeto é ainda impossível obter o consenso: nas escolas de música, os professores, de uma maneira geral, torcem os seus narizes colonizados, enquanto que os estudantes o tem como uma espécie de guru, e um exemplo a ser seguido: Hermeto Pascoal tornou-se um modelo para a nova geração de músicos brasileiros, que o chamam carinhosamente de “campeão”. Outros, ainda mais fascinados por suas incomuns sonoridades, o consideram uma “Força da Natureza” ou ainda um “Espírito da Nordestinidade”. Sobre o Bruxo ( outro apelido que adquiriu devido à sua estranha aparência de albino, agravada por sua longa melena e barba brancas, sempre em total desalinho), contam-se diversas histórias cujos limites entre a veracidade e a lenda somente o próprio músico poderia comprovar. Conta-se, por exemplo, que carregava consigo um lápis e folhas pautadas com o pentagrama, onde anotava sons que lhe chamavam a atenção, como os dos vendedores de taboca, assobio dos amoladores de facas, a ladainha dos feirantes, os bordões dos locutores esportivos, simulando instrumentalmente suas narrações futebolísticas, e até mesmo os altos decibéis do trânsito paulistano. Conta-se também que, certa vez, pendurou no estúdio um de seus músicos, de cabeça para baixo, à moda das armadilhas do antigo faroeste americano, simplesmente porque achou que a voz de sua infeliz cobaia fluia “legal” nesta incômoda posição. Dizem alguns que seria possuidor de poderes mediúnicos (o que foi veementemente negado pelo músico). Fictícias ou verdadeiras, o importante é que todas estas histórias ou fábulas estão simbolicamente contidas em sua música incomum e heterodoxa.
VIRTUOSISMO INSTRUMENTAL
A habilidade instrumental de Hermeto é realmente espantosa, pois foi um dos poucos músicos do mundo capaz de dominar, com insuspeitável virtuosismo, os diversos tipos de teclados, vários sopros, como a flauta, o sax, trompete, além da primordial sanfona de 8 baixos, clavinete, e dos insólitos instrumentos por ele próprio criados, com bacias, chaleiras, panelas, garfos, pratos, garrafas, brinquedos infantis, além de outras geringonças impensáveis. Criou também a zoomúsica, formando estranhos duetos com porcos, perus, papagaios, cães e galinhas de sua propriedade, além de ter esperado meses a fio para poder gravar com nitidez o canto mortal das cigarras de uma árvore em frente à sua casa, que foi utilizado numa colagem sonora em uma de suas músicas. Sobre a sua espantosa facilidade instrumental, assim se expressava: “Às vezes eu fico pensando comigo mesmo: realmente, como foi que eu aprendi? Aí eu fico sofrendo... Eu quero que as pessoas fiquem sabendo que eu às vezes sofro com isso. Porque eu queria saber também como aprendi... Eu peguei certa vez o bombardino, um instrumento que jamais havia tocado. Peguei e com três dias estava tocando e não sei como! (...) Então é ele, é o dom que me dá esta força, entende? Tem gente aí que vai pensar que é religião. Mas não é nada disso, não sei o que é. É o dom...” Sobre seu grupo de músicos, Hermeto assim se expressava: “Esse grupo para mim é tudo que estou fazendo agora. É um pessoal que não mede a vontade de trabalhar de tocar e de estudar (...) Nós ensaiamos todos os dias de 2 da tarde às 8, 9 horas. “Mesmo quando eu saio fica tudo programado, certinho (...) Eu não sou um professor do grupo, porque eu também aprendo com eles. Se eu ensino um negócio pró músico, eu não imponho a ele uma condição de fazer como eu faço. Eu faço e digo. Toca aí para ver como você toca. Aí eu dou uma ajeitadinha em qualquer problema rítmico. Mas o sentimento do cara, esse eu não quero mexer, interferir” . Certa vez levou seu grupo para tocar garrafas afinadas com níveis distintos de água e os mergulhou dentro de uma lagoa. O concerto aquático ficou registrado num memorável vídeo disponível nas plataformas online. Aos hermetófilos de carteirinha (e são uma vasta legião mundial) informo que existe no you tube uma extensa videoteca com shows, entrevistas, participações nos maiores festivais de jazz do mundo, cenas caseiras e sertanejas. Alguns desses vídeos são antigos, e contêm os germens da fermentação desta música tão pessoal, mas que magnetizou músicos ao redor do mundo. Finalizo com os versos que o compositor Guinga fez em sua homenagem:
“Hermeto foi na cozinha pra pegar o instrumental Do facão à colherinha tudo é coisa musical Trouxe concha e escumadeira, ralador, colher de pau Barril, terrina e peneira, tudo é coisa musical…”
Roberto Leon Ponczek
Enviado por Roberto Leon Ponczek em 01/12/2025
Alterado em 05/12/2025 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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