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CHICO BUARQUE, O DRAMATURGO RADICAL
Chico Buarque de Holanda, é um compositor dito popular, que devassa todas as tênues fronteiras das definições. Com uma harmonia das mais complexas, uma melodia radiante e uma poesia que revela como tomografia, a sociedade brasileira pós-64, em fratura exposta, Chico arrebentou as comportas do estritamente popular, indo se alojar no terreno da erudição.
Poucos compositores de canções (uma tradição que remonta os menestréis da Idade Média, passando pelos compositores vienenses de lieds) podem atualmente lhe fazer sombra: no Brasil, o maestro soberano Antonio Carlos Jobim, com a sua elegância harmônica bossanovística, é uma influência decisiva; nos Estados Unidos, Cole Porter, com sua temática rebuscada, e George Gershwin com uma inventividade erudita. Mas nenhum deles influenciou tanto Chico Buarque quanto Kurt Weill, compositor alemão, radicado nos Estados Unidos após a Segunda Guerra (autor de Mack the Knife), que musicou boa parte da dramaturgia de Berthold Brecht. A exemplo do teatro de Brecht-Weill, o universo buarquiano é essencialmente teatral-expressionista, Prostitutas, travestis decadentes, palhaços, metafísicas bailarinas, cantores ébrios, medíocres funcionários públicos, mulheres traídas, homens abandonados, pivetes maltrapilhos e miseráveis de todas as espécies compõem este imenso painel que retrata, sem contemporizações, uma sociedade estratificada socialmente, porém terrivelmente viva. Interpretar Chico Buarque exige assim entregar-se a uma radical catarsis. É necessário lançar-se de cabeça no dolorido tecido dramatúrgico do mestre carioca, sem querer sair ileso. Chico Buarque machuca e é necessário ter-se coragem para se flagelar. Chico deve soar tão tenebrosamente sincero quanto um tiro à queima roupa: “De tudo que é nego torto/ Do mangue e do cais do porto/ Ela já foi namorada/ O seu corpo é dos errantes/ Dos cegos, dos retirantes/ É de quem não tem mais nada/ Dá-se assim desde menina/ Na garagem, na cantina/ Atrás do tanque, no mato/ É a rainha dos detentos das loucas, dos lazarentos/ Dos moleques do internato/ E também vai amiúde/ Com os velhos sem saúde/ E as viúvas sem porvir/ Ela é um poço de bondade/ E é por isso que a cidade/ Vive sempre a repetir/ Joga pedra na Geni/ Joga pedra na Geni.... A obra de Chico deve receber de seus intérpretes uma selvagem leitura, sendo difícil escolher um repertório limitado aos tempos de gravação nos estúdios ou aos palcos, pois a intensidade da obra dramática do autor de “Geni e o Zepelim”, não tem limites, como as obras-primas “Todo o Sentimento”, “Estação Derradeira”, “Angélica”, “Beatriz”, “Soneto”, “Suburbano Coração”, “Tatuagem”, “Morro Dois Irmãos”, “Gota D’Agua” ou “Valsinha”, "Olhos nos Olhos", "Atrás da Porta " entre outras obras primas. Parafraseando o próprio Chico Buarque de Holanda, o intérprete deve nos mostrar “tatuado a ferro e fogo em carne viva” um trabalho pungente e corajoso. Para cantar e ouvir Chico Buarque é necessário que intérpretes e ouvintes ainda cultivem um gosto apurado e uma sensibilidade, à flor da pele.
Roberto Leon Ponczek
Enviado por Roberto Leon Ponczek em 04/11/2025
Alterado em 29/12/2025 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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