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O ESPELHO E A JANELA
O ESPELHO E A JANELA
Todas as manhãs eu acordava ansiosamente para poder me olhar em um fino espelho de prata com molduras folheadas a ouro que ficava na antessala de minha luxuosa casa. Eu ficava extasiado vendo apenas a minha imagem e isso me bastava, e nada mais fazia durante o dia todo, entorpecido por um delirante transe de êxtase e frenesi.Tornei-me adicto de mim mesmo como se a minha imagem fosse a mais potente droga entorpecente. Durante anos repeti esse mesmo ritual narcísico, tal qual uma viciante e solitária masturbação que me levava a orgasmos estéticos. O mundo se resumia em mim mesmo e vendo- me no espelho era como ter visto tudo que pudesse existir. A minha imagem era o começo e o fim do universo. Nada mais poderia existir além de minha imagem refletida e emoldurada pelo belo espelho. Até que um dia, algo distinto aconteceu. Depois de minha dose usual de autossatisfação, andei mais adiante, subi as escadas até chegar ao abandonado sótão da casa, cheirando a poeira e mofo há anos acumulados. Descobri tambem uma tosca janela de moldura de madeira carcomida por cupins e de vidro rachado, que deixava transpassar uma tênue lufada de ar, permitindo-me sentir o cheiro de maresia que vinha lá de fora, e que fazia vibrar o vidro rachado numa estranha frequência sonora. Pela primeira vez na vida não vi a minha imagem. Vi que havia para além da janela um imenso mundo em crepitante movimento com uma profusão de luzes, que ricocheteiam na terra, nas montanhas e nos mares, vinda dos céus. Ouvi também as estranhas vibrações da janela de vidro emitindo sons que nunca ouvira antes. E quem diria, um olhar mais atento me permitiu ver outras entidades humanas que se moviam com desenvoltura independentemente de mim mesmo. Pensei desconcertado que além de minha imagem, havia um imenso universo externo de luzes e sons carregados de plena realidade. Na manhã seguinte, despertei e como de costume, corri para o espelho. Entretanto, a moldura de ouro desta feita, pareceu-me subitamente estreita, como uma moldura de caixão. O reflexo que antes me extasiava agora revelava-se como uma farsa bidimensional, uma sombra projetada na parede de uma caverna que eu mesmo cavei. Assim o habitual ritual de autocontemplação especular, estranhamente já não me fazia sentir o mesmo prazer, pelo contrário, senti tédio e total frustração. A droga por tantos anos consumida não me satisfazia mais, O reflexo que antes me extasiava agora revelava-se inócuo. Percebi que só via imagens refletidas, e pior ainda, só a minha. Entendi que já havia perdido muitos anos apenas vendo a minha imagem e que deveria calçar meus sapatos e com uma pequena mochila às costas ganhar o mundo, pois era lá fora que estava toda a deslumbrante realidade com todas as suas luzes e cores. Entendi assim que havia recebido um convite à superação do ego narcísico que me havia consumido e ir à busca do conhecimento e da experiência fora dos limites da própria autocontemplação. Segui por ruas que se tornaram estreitos caminhos de barro e depois picadas floresta adentro. Cruzei com homens cansados, mulheres precocemente envelhecidas por árduo trabalho que levavam no colo crianças esquálidas. Entendi que no mundo, que acabara de conhecer, havia sofrimento e pobreza, além de cores e beleza que eu havia visto da janela. Esqueci a minha imagem e aprendi que ela nada significava no mundo que agora havia me engolido. Pessoas e animais por mim passavam sem me ver. Tornei-me invisível. A minha imagem que outrora fora tudo que existia, apagou-se e eu agora aprendi a ver o mundo, tal qual era, ora solar e luminoso como também escuro e soturno. Da riqueza e abundância de minha casa e meu espelho que me bastavam, mergulhei nas profundezas de um mundo que existia independentemente de mim. Dilui-me no mundo como uma gota de tinta que se mistura com a água e desaparece como gota e torna-se água levemente colorida. Consegui assim colorir tenuamente o mundo e desaparecer por ele absorto. . .
Roberto Leon Ponczek
Enviado por Roberto Leon Ponczek em 09/10/2025
Alterado em 07/07/2026 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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