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Olhei para um fino espelho de prata e só vi minha imagem, olhei por uma tosca janela e vi o mundo.

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AS QUATRO SEPULTURAS

AS QUATRO SEPULTURAS

Por Roberto Leon Ponczek

Depois de trinta anos na Bahia e cinco no Rio — cidade onde nasci e para onde retornei como quem fecha um ciclo —, fui ao funeral de um amigo da juventude. Um daqueles amigos que pertenciam a uma geração tão antiga quanto nós, com quem compartilhávamos músicas, livros e palavras esquecidas nos dicionários.

O crematório do Cemitério do Caju parecia suspenso no tempo. O ar era pesado, quase sólido. Após consolar a viúva e suas duas filhas — com palavras que me soavam ocas —, meus olhos foram inevitavelmente atraídos para o caixão, onde se aglomerava a maioria dos presentes.

Ali estava ele. Ou melhor, o que restara dele.

O rosto exposto, imóvel, excessivamente branco, endurecido como pedra. Não havia mais vestígio do homem que eu conhecera. Apenas uma máscara. Uma caricatura da vida. Um simulacro.

Senti um desconforto profundo — quase uma invasão. Como se estivéssemos olhando algo que deveria permanecer oculto.

Por que mostrar aquilo?

Por que permitir que a última imagem de alguém seja justamente a negação de tudo o que ele foi?

Aquela face não era memória. Era apagamento.

Nos funerais judaicos que conheci — de meus pais, de amigos —, o corpo permanece oculto. O que se preserva é o invisível: gestos, ideias, teorias , afetos. Aquilo que Baruch Spinoza chamaria de a parte eterna da alma.

Ali, porém, a morte era exibida. E aquilo me pareceu... perturbador demais.

Despedi-me rapidamente. Precisava sair.

Ao lado, separado por um portão discreto, ficava o cemitério israelita. Caminhei até lá quase sem pensar, como se algo me puxasse.

O calor era sufocante. O silêncio, mais ainda.

As sepulturas se comprimiam umas contra as outras, formando um labirinto estreito, irregular, quase claustrofóbico.Esgueirei-me com dificuldade entre elas, desviando, tropeçando, hesitando.

Levei tempo até encontrar a sepultura de meu pai. Quase não a reconheci.

A pedra estava corroída, como se o tempo a tivesse mastigado lentamente. Restavam apenas fragmentos de letras — vestígios de um nome que resistia em desaparecer. Coloquei uma pequena pedra sobre o túmulo.

Depois, minha mãe. O mesmo destino. A mesma erosão. A mesma dissolução silenciosa.

Segui caminhando, agora sem direção clara.

Foi então que avistei algo diferente.

As sepulturas de Dina Sfat e Clarice Lispector estavam impecáveis. Letras nítidas. Pedra intacta. Preservadas.

A morte também tem suas hierarquias, pensei.

Dei mais alguns passos.

E então... parei. O ar pareceu desaparecer, sufocando-me.

Diante de mim, havia uma sepultura nova. Bem conservada. Limpa. Precisa. Aproximei-me.

Li o nome: José David Perelman

O meu nome! Cada letra. Sem erro.

A estrela de David acima. A data de nascimento — correta. Exata.

E abaixo... A data de morte: dois anos atrás.

Senti um frio subir lentamente pela espinha.Um frio que não vinha de fora.

Ri, nervoso. Aquilo só podia ser um engano. Um homônimo. Uma coincidência grotesca.

Mas havia algo errado. Muito errado.

Belisquei-me com força. Dor. Respirei fundo. Ar. Coração acelerado. Eu estava vivo.

Estava?

Caminhei até a administração, tentando manter algum vestígio de racionalidade. Perguntei pelo nome inscrito no túmulo.

O funcionário consultou seus registros com calma excessiva — como se aquela situação não tivesse nada de extraordinário.

— Sim — disse ele. — Faleceu há cerca de dois anos.

Descreveu a cena do enterro.

Dois filhos. Um rapaz e uma moça.

A esposa. A irmã. Colegas. Alunos. Muitos alunos.

Cada detalhe encaixava-se perfeitamente na minha biografia.

Não havia margem para erro.

— Isso é impossível — murmurei. — Esse homem sou eu.

O funcionário não  demonstrou nenhuma surpresa. Apenas explicou, com voz tão neutra quanto de um corretor de imóveis, que os caixões permanecem fechados. Ninguém vê os cadáveres.

Consultou novamente o livro.

Data confirmada. Nome confirmado.Tudo confirmado.

Saí dali sem saber ao certo como ainda conseguia andar. Voltei ao túmulo.

Fiquei diante dele por um longo tempo.

Se eu estava ali... então quem era eu? Ou pior: se eu estava aqui... quem estava lá dentro?

Uma ideia começou a se formar. Insidiosa. Inescapável.

Como no paradoxo do Gato de Schrödinger, talvez eu estivesse em dois estados simultaneamente. Vivo E morto. A controversa superposição quântica de contradições. Os vários mundos possíveis.

Tudo dependia de uma única coisa:

Abrir o caixão: observação, de onde.enfim emerge a realidade.

Mas enquanto ele permanecesse fechado...

Eu continuaria existindo nesse estado paradoxal que a mecânica quântica nos impõe:

Vida E morte: uma superposição de ambas.

Talvez eu seja um homem, como Brás Cubas, que sobreviveu à própria morte? Ou talvez...

apenas alguém que ainda não percebeu que havia virado uma espécie de Gregor Samsa, a monstruosa barata de Kafka? Talvez um vampiro?

Deixo a você, que chegou até aqui, a tarefa de decidir:

quem, afinal, está enterrado naquela sepultura? Um zumbi? E quem sou eu? Outro zumbi?

E quem... está lendo este texto agora? Outros zumbis?

 

Roberto Leon Ponczek
Enviado por Roberto Leon Ponczek em 04/10/2025
Alterado em 22/07/2026
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