Site do escritor Roberto Leon Ponczek

Olhei para um fino espelho de prata e só vi minha imagem, olhei por uma tosca janela e vi o mundo.

Textos


EU VI UM JABUTI COMENDO JABUTICABA

 

José nutria uma profunda afeição pela filha, Mila. Mesmo depois da separação conjugal, continuou convivendo com ela quase diariamente até que completasse dezoito anos. Passavam juntos três dias por semana, além dos finais de semana alternados. Ele a buscava na escola, almoçavam em casa e, à tarde, acompanhava seus estudos de física e matemática. Mila era uma aluna brilhante; jamais precisava ser incentivada a estudar. Ao contrário, muitas vezes era o próprio pai quem interrompia os exercícios para convidá-la a tomar um sorvete, ali perto.

A cumplicidade entre os dois ia muito além da rotina. Frequentavam cinemas, shows e concertos, compartilhando um universo musical que atravessava gerações e estilos. Da delicadeza de Tom Jobim e Chico Buarque ao lirismo de Chopin, Bach e Mozart; da inventividade de Miles Davis e Bill Evans ao virtuosismo vocal de Bobby McFerrin, pai e filha pareciam ouvir a mesma música interior. José já não distinguia onde terminava o amor paterno e começava a amizade. Mila era, ao mesmo tempo, filha, confidente e companheira.

Durante muitos anos acreditou que aquela harmonia permaneceria inalterável.

Mila ingressou em primeiro lugar no curso de Engenharia Ambiental da Universidade Federal da Bahia. Logo nos primeiros semestres conquistou uma bolsa de iniciação científica, confirmando o talento que sempre demonstrara. Tudo parecia seguir o curso esperado quando, inesperadamente, comunicou ao pai que fora aprovada também em Engenharia Química na Unicamp e decidira mudar-se para Campinas.

— Quando? — perguntou José, procurando esconder a inquietação.

— Semana que vem.

As palavras o atingiram como uma descarga elétrica de mil volts.

— Semana que vem? Como assim?

— Minha mãe vai comigo. Vamos procurar um apartamento para dividir com algumas colegas.

José tentou demovê-la da ideia. Argumentou, ponderou, apelou para os sentimentos. Nada adiantou. Conhecia bem a personalidade da filha. Apesar da pouca idade, sua determinação era inabalável. Quando tomava uma decisão, dificilmente voltava atrás.

Na semana seguinte, Mila partiu.

A despedida mergulhou José numa solidão que jamais imaginara experimentar. O apartamento, antes tomado pelas conversas da filha e pelas risadas de suas colegas de estudo, tornou-se silencioso como uma casa abandonada. Os objetos pareciam ter adquirido voz. Cada cadeira vazia, cada livro esquecido sobre a mesa, cada urso de pelúcia repousando na cama intacta testemunhava a ausência de Mila. Havia tardes em que o silêncio se tornava tão espesso que ele tinha a impressão de ouvir o rumor da própria alma.

Levou quase um ano para admitir que a escolha da filha fora acertada. Ela crescia intelectualmente, construía seu próprio caminho e conquistava uma independência que o enchia de orgulho. Ainda assim, compreender não significava deixar de sofrer.

Durante esse período, as notícias eram escassas. Até que, quase doze meses depois, o telefone tocou.

— Pai, vou passar uma semana de férias com você.

José mal conseguia conter a felicidade. Assim que desligou, percebeu-se cantarolando uma antiga música que fizera sucesso nas rádios baianas décadas antes. Era Rasta Pé, de Jorge Alfredo e Chico Evangelista, cujo refrão insistia em lhe ocupar a memória:

Eu vi um jabuti comendo jabuticaba...

Eu vi um jabuti comendo jabuticaba...

Naquele dia, saiu cedo para fazer compras no antigo supermercado Paes Mendonça. Enquanto caminhava pela rua, ainda assobiando a melodia, notou um ambulante vendendo jabuticabas. Estranhou. Quase nunca se encontravam aquelas frutas em Salvador. Sem pensar muito, comprou um pacote generoso. Não fazia ideia de que aquele gesto banal permaneceria para sempre ligado à lembrança daquele reencontro.

No mercado, encheu o carrinho com tudo de que Mila gostava. Ao voltar para casa, carregava sacolas pesadas e um pequeno embrulho de jabuticabas negras, de polpa branca, que repousava cuidadosamente entre as compras, como um detalhe sem importância.

Mal podia imaginar que, dali a poucas horas, aquela fruta faria parte de uma das lembranças mais extraordinárias de toda a sua vida.

Mila chegou no dia seguinte. Assim que a porta do apartamento se abriu, pai e filha se abraçaram longamente, como se procurassem recuperar, num único instante, todos os meses de distância. Conversaram sem pressa, riram das novidades acumuladas e, logo na primeira noite, decidiram passar alguns dias na casa de veraneio que José possuía em Jauá, pequena praia situada a cerca de cinquenta quilômetros de Salvador.

Durante a viagem, o clima era de absoluta descontração. Relembravam histórias antigas, comentavam a vida universitária de Mila e, entre uma lembrança e outra, voltavam a cantar o refrão que, desde o telefonema da filha, não saía da cabeça de José:

Eu vi um jabuti comendo jabuticaba...

Eu vi um jabuti comendo jabuticaba...

A casa de Jauá conservava o encanto simples das construções litorâneas de antigamente. Varandas largas, revestidas de lajotas de barro, circundavam toda a residência. Os alpendres de telhas avermelhadas projetavam sombras acolhedoras, conferindo-lhe um aspecto de antiga casa de fazenda transplantada para a praia. O amplo terreno arenoso era salpicado por coqueiros e imensas amendoeiras, cuja copa oferecia abrigo contra o sol intenso do verão baiano.

Ao abrirem o portão, pai e filha interromperam a conversa ao mesmo tempo.

No centro do terreno, sob uma das amendoeiras, caminhavam lentamente dois jabutis.

Durante anos frequentando aquela casa, José jamais havia visto um único exemplar da espécie. A propriedade era totalmente murada e, além disso, a restinga litorânea estava muito longe de constituir o habitat natural daqueles animais, típicos das matas brasileiras.

Os dois permaneceram imóveis durante alguns segundos, como se temessem quebrar o encanto daquela visão inesperada.

Foi Mila quem primeiro reagiu.

Correu até o carro, apanhou o pacote de jabuticabas comprado pelo pai e, sorrindo como uma criança, espalhou delicadamente as frutas diante dos animais.

Os jabutis aproximaram-se sem qualquer hesitação.

Começaram a comer as jabuticabas com impressionante avidez.

José e Mila se entreolharam.

Nenhum dos dois dizia uma palavra.

Era como se ambos estivessem assistindo à materialização de um verso impossível.

O refrão deixara de ser uma canção. Tornara-se realidade.

Temendo que ninguém acreditasse naquela cena improvável, José pegou a máquina fotográfica e registrou diversas imagens dos dois jabutis saboreando as frutas negras. As fotografias tornavam-se, naquele instante, o único testemunho concreto de que não estavam tendo uma alucinação lisérgica.

Os dois explodiram em gargalhadas.

Voltaram a cantar o velho refrão, agora muito mais alto, como se a música tivesse atravessado a fronteira entre a imaginação e o mundo real.

Entraram na casa ainda rindo, cantando aquele refrão e comentando a inacreditável coincidência.

Permaneceram apenas alguns minutos no interior da residência.

Quando regressaram ao quintal, os jabutis haviam desaparecido.

Procuraram atrás das árvores, junto aos coqueiros, ao redor da casa, entre os arbustos e próximo aos muros.

Nada.

Nem um único vestígio.

Era como se jamais tivessem estado ali.

Durante longo tempo, pai e filha percorreram todo o terreno, incapazes de aceitar aquele desaparecimento tão repentino quanto a aparição.

Por fim, desistiram.

José olhou para a filha e sorriu.

Talvez aqueles animais tivessem existido apenas pelo tempo necessário para transformar um simples refrão numa lembrança eterna.

Existiram exatamente pelo tempo de uma canção.

E isso bastava.

****************************

Como explicar aquela aparição?

Teria sido apenas uma coincidência extraordinária, um improvável encontro de probabilidades, como pensam os céticos? Ou o universo entrara em ressonância com a alegria de ambos, como diriam os misticos? Ou seria ainda aquilo que Carl Gustav Jung chamava de sincronicidade: acontecimentos sem relação causal entre si, mas unidos pelo significado profundo que adquirem para quem os vive?

José jamais encontrou uma resposta.

Talvez algumas experiências existam precisamente para permanecerem inexplicáveis.

Há momentos em que a realidade parece ultrapassar a própria imaginação, oferecendo-nos pequenos milagres cotidianos que não pedem demonstração nem teoria. Apenas acontecem. E, justamente por escaparem à lógica, permanecem vivos na memória muito depois que os fatos se dissolvem no tempo.

Naquele verão, pai e filha jamais voltaram a falar seriamente sobre o episódio. Bastava que um deles cantarolasse, anos depois, o velho refrão — "Eu vi um jabuti comendo jabuticaba..." — para que ambos se entreolhassem sorrindo, cúmplices de um segredo que ninguém mais poderia compreender inteiramente.

Os anos seguiram seu curso.

Mila concluiu a universidade, casou-se e foi viver na França, onde construiu sua própria família e uma brilhante carreira profissional. José acompanhava, à distância, cada uma de suas conquistas, dividido entre o orgulho e a inevitável saudade.

Pouco tempo depois, vendeu a antiga casa avarandada de Jauá. Sem a presença da filha, o lugar perdera parte da magia que um dia o transformara em refúgio de tantas lembranças felizes.

Nunca mais voltou ali.

Também nunca mais viu um jabuti.

Nem tornou a comprar jabuticabas.

Mas, sempre que, por acaso, escutava a antiga canção interrompia por um instante o que estivesse fazendo. Um sorriso discreto surgia em seu rosto, enquanto a memória o levava de volta àquele luminoso dia de verão.

Então compreendia que algumas felicidades são breves demais para durar, mas intensas o bastante para atravessar uma vida inteira.

E tinha a estranha e reconfortante impressão de que, durante aqueles poucos minutos em que dois jabutis comeram jabuticabas debaixo de uma amendoeira, o universo inteiro parecera cantar apenas para um pai e sua filha.

 

 

Roberto Leon Ponczek
Enviado por Roberto Leon Ponczek em 01/02/2024
Alterado em 18/07/2026
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